segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Recomendo lerem: Livro O Guia Do Mochileiro Das Galáxias, Douglas Adams


O Guia Dos Mochileiros Das Galáxias é um livro de ficção científica e comédia, escrito pelo inglês Douglas Adams. Esse livro se tornou parte de minha lista de livros favoritos, pois é simplesmente genial! 


O livro de £etz



¹ Mudai de vida, com efeito, sempre que teu coração assim mandar,
E que ela não se assemelhe com qualquer outra
Das muitas que por aí vagueiam:
Frívolas, insensatas, levianas;
Porque estas estão, desde sempre, condenadas à infelicidade.

² Ainda que te julguem moeda de mau quilate,
expurga a hipocrisia que se acercar de ti;
Recusa todo e qualquer eu em maiúsculo:
Vão querer-te moralista, injusto, impiedoso.

³ Buscai, oh, todos os bem aventurados e corajosos -
feliz aquele que precisou ver pra crer -
Todos os de mente e coração abertos
Que se regozijam com um belo jardim
Sem esperar nele encontrar duendes ou fadas*,
e deles será todo o Universo e suas veredas.



* citação a Douglas Adams,
em O Guia do Mochileiro das Galáxias.



sábado, 25 de setembro de 2010

Minha crítica ao filme - INCEPTION (A ORIGEM)


Nunca um filme havia despertado tanta "atenção" depois de MATRIX como este ( A Origem)... Passo agora um pouco da minha visão, deste que é o melhor filme dos últimos tempos...






"Qual é o parasita mais resistente? Uma bactéria? Um vírus? Não. Uma idéia! Resistente e altamente contagiosa. Uma vez que uma idéia se apodera da mente, é quase impossível erradicá-la. Uma idéia que é totalmente formada e compreendida, permanece"

Essa é a carta de apresentação do mais novo filme de Christopher Nolan: "A origem" (Inception, 2010). Essas palavras são pronunciadas para alguém que está comendo. É importante ter isso em mente para a compreensão do uso do nome "Inception", que tem sido mal interpretado até mesmo nas críticas onde a língua-mãe é o inglês.
Inception: No dicionário significa Início, origem. Ok, mas tudo no filme, a começar pela cena que descrevi acima, nos leva a perceber que o uso do título "Inception" deriva do verbo incept, que significa ingerir. Tudo no filme gira em torno da ingestão de uma idéia. Concordo que seria um título esquisito e pouco chamativo, mas nas legendas do filme é usada a expressão inserção, que pode não ser a tradução literal, mas é a mais adequada (e funcionaria perfeitamente para o título em português). Há uma diferença fundamental entre inserção e ingestão. Enquanto o primeiro nos remete a um procedimento invasivo, ativo no sentido de ser empurrado algo a alguém, no segundo temos um movimento de aceitação, de passividade, de acolhimento. São assim que as idéias são absorvidas, e assim que elas permanecem. Considerando isto, uma outra tradução possível para o título, e que seria ainda mais precisa (embora pouco conhecida) é Intervenção.
Intervenção é um termo usado em psicanálise para definir a pontuação feita pelo psicanalista no paciente, numa dada vivência, de forma que o liberte ou dê uma tomada de conciência antes não acessada. Pra quem achou complicada essa definição, nada mais é do que a intervenção de um especialista na mente do paciente, no sentido de conduzir o fluxo de seus pensamentos para uma auto-libertação (catarse). É exatamente o que acontece no filme com o executivo Fischer (interpretado por Cillian Murphy) e com Cobb (Di Caprio). Sabemos que a intervenção do executivo foi guiada por Cobb. Mas quem guiou a do guia?
O final do filme dá margem a duas interpretações básicas: 1 - Cobb acorda de fato e volta para seus filhos no mundo real. 2 - Cobb ainda está sonhando. Essa segunda alternativa é que abre o filme a infinitas interpretações que pipocam pela internet e fazem a graça e a genialidade da sétima arte, porque insere o espectador na história, faz o filme não acabar com o fim da projeção, e "digerimos" aquela idéia por dias, talvez semanas ou meses!
Vou compartilhar com vocês uma visão quase inédita do filme e que faz TODO o sentido. Descobrimo-la, Paula e eu, num brainstorm de algumas horas logo após o filme, e confesso que quando Paula sugeriu QUEM poderia estar por trás do sonho de Cobb minha cabeça explodiu. Apresento-lhes agora o responsável pela distorção de realidade que nós e Cobb compartilhamos por 2 horas e 46 minutos:



Ele mesmo, Miles (Michael Caine), o pai de criação e mestre de Cobb na "arte de navegar mentes"; o único com capacidade para iludir Cobb num intrincado jogo para fazê-lo se perdoar e voltar para os filhos, e o único com motivos para fazê-lo. Há duas teorias sobre em que momento Cobb entrou neste "grande sonho" sem perceber: Uma é que TODO o filme já é um sonho. Isso torna as coisas mais fáceis, pois todos os personagens e situações anteriores a isso ocorreriam apenas na mente de Cobb, manipulada por Miles. Mas a Teoria Acid-Paula (2010) segue o raciocínio (embasado por dicas dadas pelo filme) de que o "grande sonho" começa em Mombaça (na África).
Percebam que quando Cobb conhece Yusuf (Dileep Rao) ocorrem uns diálogos estranhos. Ele aparentemente alfineta Cobb com a pergunta "você ainda sonha, Cobb?" ou o velho que diz "Eles vêm aqui para serem acordados. O sonho se tornou para eles a realidade. Quem é você pra dizer o contrário?", na parte em que mostram alguns idosos sonhando num porão. Antes disso Yusuf ainda questiona Cobb se ele tem certeza de que quer ver essa cena. Após Cobb pedir pra Yusuf testar nele um poderoso sonífero, ele sonha com Mal e "acorda" tão angustiado que não consegue nem girar o pião. Só que, de acordo com minha teoria, ele não acorda de verdade. E a partir daí surgem flashes das crianças e de Mal em sua "realidade". O pião não é girado mais (ou pelo menos ele não cai). Esse é o "grande sonho" do qual ele não acorda mais.
A idéia por trás dessa teoria é que Miles, juntamente com Ariadne e Yusuf (e possivelmente Saito) sabem do plano dentro do plano, que é mergulhar fundo na mente de Cobb ao mesmo tempo em que mergulham na de Fischer pra realizar a missão de Saito. Tipo um remake psicológico de "11 homens e um segredo". Pode ser que haja outros personagens envolvidos na trama, ou até mesmo todos os personagens (tirando o Fischer e seu tio), mas é difícil definir isso sem viajar na maionese. O que me deixa bastante confiante na teoria é que o diretor passou 10 anos escrevendo e elaborando esse script, e creio que ele teve tempo demais pra pensar em todos os detalhes e não deixar nada tão preguiçoso macular seu brilhante roteiro se não fosse intencional (Ariadne aceitar muito facilmente um trabalho que é oferecido a ela como ilegal e, depois, perigoso. Saito aparecer magicamente na África; Miles estar convenientemente esperando por ele na alfândega do aeroporto; as crianças estarem praticamente com as mesmas roupas e posição no final, etc). Outro fato que corrobora a teoria é a conversa de Cobb com Miles. Miles parece bastante cínico quanto ao pedido de Cobb por um arquiteto, pois sabe das tramóias ilegais em que ele esteve envolvido, mas quando Cobb diz a ele que é pra reencontrar os próprios filhos, Miles prontamente diz "eu tenho a pessoa certa pra você" e nos apresenta Ariadne (Ellen Page). Isso acontece porque Miles percebe que é a hora certa de botar seu próprio plano de "inception" em prática. Como falei mais acima, a intervenção só funciona no tempo e momento de cada um. Quando Cobb se considera apto para "abandonar suas ilusões" Miles arquiteta seu plano.
Os nomes dos personagens são um guia para entender o roteiro:
Dom Cobb: Dom é "Senhor, Soberano". Cobb pode ser traduzido como "aquele que está no controle". O que é irônico, porque ele PENSA que está no controle, mesmo quando as coisas dão errado, mas, se minha teoria estiver correta, é a garota (A Arquiteta) que comanda o espetáculo, como veremos abaixo.
Arthur: É o "herói" do filme no seu sentido mais hollywodiano. É altivo, guardião, confiável, infalível e ainda beija a garota. Não há erro em apontar seu nome como uma referência direta ao Rei Arthur.
Ariadne: Do grego Arihagne (Pura, sagrada). Na mitologia Ariadne é quem ensina Teseu a se guiar no labirinto de Tebas e a derrotar o Minotauro. Ela dá a ele um rolo de fio - que ficou conhecido como o "fio de Ariadne" - pra ele sempre saber por onde veio. No filme a menina (imagem de pureza) guia Cobb pelo labirinto que ela criou. Ela é o fio condutor da trama, e pode ser considerada a personagem principal, por ser a guia na jornada de Cobb pela sua própria mente, sem que ele perceba a intenção por detrás disso.
Mal: O nome da esposa de Cobb é incerto (possivelmente Margaret), mas todos a chamam de Mal, que em francês é o mesmo que em português: Omal. Na divulgação do filme ela é chamada de "A sombra", e é exatamente isso que ela é, na psicologia analítica. A sombra é uma parte de nossa psiquê que queremos ocultar de nós mesmos, e assim a projetamos inconscientemente no outro. O sentimento de culpa em relação ao que aconteceu a Mal manteve-a viva nas projeções mentais de Cobb, levando a este conflito Amor x Culpa em todos os sonhos dele, representados/projetados na figura bidimensional/caricata de Mal que, ao mesmo tempo em que é a doce amada, é também a raiva e a destruição dos desejos inconscientes de Cobb (que não fosse o dele ficar com ela no limbo, porque no fundo ELE não queria deixá-la, por essa mistura de amor, culpa e arrependimento).
Fischer: É o executivo em quem Cobb deve implantar a idéia. Seu nome deriva de Fisher (pescador). Ironicamente quem é "fisgado" sem querer é o Cobb.
Eames: É o que se transforma no tio de Fischer dentro do sonho. Seu nome deriva do inglês arcaico Eam, que significa.... Tio.
Yusuf: É o químico preparador do sonífero que permite o sonho pesado. Seu nome significa José, em árabe. No Corão há um Yusuf cuja história começa com um maravilhoso sonho que ele teve, e posteriormente adquire a habilidade de interpretar sonhos. Na nossa Bíblia há também - em Gênesis 37 - um José que interpreta sonhos.
Maurice: É o pai de Fischer. Seu nome deriva do latim Mauritius (Mouro), uma tribo que vivia no norte da África e hoje são muçulmanos. São Maurício (St. Maurice) foi o soldado romano (convertido cristão) que se tornou mártir ao preferir morrer com toda a sua unidade de soldados a cumprir ordens de esmagar uma revolta cristã.
Miles: É o pai de Mal, professor de arquitetura e mentor de Cobb na arte de criar sonhos. Seu nome significa, em latim, soldado. É interessante perceber que a figura paterna do personagem Fischer possui um nome que remete ao próprio sogro de Cobb.
Saito: Provavelmente este nome é uma homenagem a Hajime Saito, samurai líder dos Shinsengumi e policial do serviço de inteligência, relacionado com contra-espionagem. O personagem é apresentado no filme como um empresário poderoso, representando um Deus Ex Machina que possibilita qualquer coisa que Cobb precise. É a chave para a realização do desejo de Cobb rever seus filhos, algo que até então ele achava impossível. Durante o filme Saito dá mostras de seu poder e influência (como comprar uma companhia aérea inteira pra utilizar UM avião) e resgata Cobb de uma enrascada no meio da África. Isso fortalece os laços entre ambos, e ele acaba assumindo para Cobb uma figura de autoridade quase paterna, influência que Miles não possuía. Por isso creio que Saito foi utilizado para influenciar discretamente o consciente de Cobb com um questionamento: "Você quer se tornar um homem velho, cheio de arrependimento, esperando pra morrer sozinho?". A frase é lembrada mais duas vezes, sendo a última no limbo, usada como um gatilho para Cobb recobrar sua consciência e trazer Saito de volta. A beleza aqui é que na verdade nesta cena Cobb está resgatando ELE MESMO do limbo através do "espelho" Saito, que naquele momento era uma representação visual - e visceral - da idéia contida na frase que era pra Cobb!
A idéia de espelho está inserida no filme em outros momentos-chave, que mais parecem uma forma gratuita de usar computação gráfica mas não são: quando a menina "dobra" a cidade e vemos prédios iguais se juntando, de forma espelhada. E noutra cena, quando a mesma menina "fecha" um vão da ponte com espelhos. O espelho é uma forma sutil de demonstrar que um dos dois é falso, e na psicanálise ele é usado para promover a desidentificação de figuras parentais ou próximas e ajudar na individuação da criança. Por exemplo, uma criança pequena não concebe a mãe como outra pessoa, e sim uma extensão dela mesma, e o espelho ajuda-a a perceber-se como indivíduo pela primeira vez. No caso de Cobb sua individualidade estava "contaminada" pela presença de Mal, e o que Ariadne faz? Ela usa o espelho para que Cobb se veja como SUJEITO, uma entidade separada de Mal. Obriga-o a olhar pra si mesmo, como se apontasse "Ei, este é você AGORA". Cobb certamente não percebeu isso conscientemente, mas algo sempre fica implantado (ingerido).
Isso é intervenção. Um psicólogo hábil pode arar e adubar a terra, e depois construir, como um arquiteto, as fundações e o palco para a apresentação de sua idéia, e assim vê-la germinar; é isso que acontece no filme, quando o Demiurgo Miles constrói, através dos personagens, toda a base (ver os filhos), o palco (a inserção de uma idéia na mente de outra pessoa, a ajuda e incentivo dos outros) e apresenta sua idéia ("Cobb, tudo o que está entre você e seus filhos agora é a sua sombra"). O desenrolar da história e o grand finale vão depender sempre do paciente.
Só que a sombra não assiste a tudo pacificamente. Ela cria um sem-fim de dificuldades e desafios, porque o inconsciente tem seus próprios planos. No filme chamam de "defesas da mente", e elas existem mesmo, e podem assumir as formas mais assustadoras ou desejáveis desde que cumpram o seu papel de bloquear aquilo com o qual você não quer (ou não está preparado para) se confrontar, como anticorpos que atacam as células que consideram invasoras. No filme isso é representado pelos cofres, pelas gangues armadas até os dentes e por uma esposa apaixonada ou raivosa.
Mal é o minotauro que Ariadne ajuda Cobb a derrotar. É graças à menina que Cobb se abre e admite sua culpa e seu remorso, confessando a história da inserção malsucedida em Mal (hehe!). Esse foi o primeiro passo de Cobb rumo à aceitação/libertação. É emblemático que Ariadne esteja sempre ao lado dele nos confrontos com a sombra, e mais emblemático ainda que ela o incentive a derrotá-la (matá-la), como na cena do limbo; quando a sombra está prestes a dominar Cobb, Ariadne intervém e atira em Mal, enfraquecendo-a e permitindo um lindo momento de catarse, em que Cobb dialoga com sua própria sombra como não sendo mais a mulher que ele tanto amou:
Cobb - Eu não posso ficar com ela porque ela não existe mais.
Mal - Eu sou a única coisa em que você ainda acredita.
Cobb - Eu gostaria. Eu gostaria mais que tudo. Mas eu não posso imaginá-la em toda a sua complexidade, toda a sua perfeição, toda a sua imperfeição. Olhe pra você. Você é só uma sombra da minha esposa verdadeira. Você é o melhor que eu posso fazer; mas sinto muito, você não é boa o suficiente.
Um dos grandes momentos da história do cinema (Ponto). O que Matrix Revolutions teve medo em abordar, aqui é dito com todas as letras, sem ser chato ou piegas.
Isso se chama em psicologia lacaniana de "atravessar o fantasma", ou seja, confrontar o sujeito com a realidade. Isso nada mais é do que achar um sentido para aquilo que inicialmente não tinha sentido. Ariadne faz isso o tempo todo com Cobb. Foi a única que explorou a relação de Cobb com Mal, entrou em seus sonhos, o ajudou a superar todas as etapas da inserção; inclusive no momento em que ele desiste e diz que fracassou, ela encontra uma solução. É ela quem dá um outro SENTIDO para continuar. É ela que vai até o último andar do elevador dos sonhos de Cobb (onde ele não queria entrar) e o acompanha ao nível mais profundo do insconsciente e o ajuda a "atravessar o seu fantasma". Ariadne é a peça-chave no filme, e creio não ser por acaso seu amuleto ser um bispo: uma peça de xadrez que, na França (terra da personagem) é chamada de "Bobo da corte", aquele que em tempos medievais se fazia de tolo e de inocente pra falar de forma ambígua certas verdades ao Rei, que o bobo (que de bobo não tinha nada) captava no mundo fora dos muros do castelo. Uma menina inexperiente expressa bem essa imagem.
Vemos então o epílogo, que é também o início do filme. Cobb está saindo do mar, que é um símbolo na psicologia para o inconsciente, porque, segundo Freud, o inconsciente - assim como o mar - não tem começo nem fim, e nem tem individualidade (é um amálgama de água, e água tirada do mar não é mar, é água). Essa simbologia nos remete claramente ao estado de Cobb, como que ressurgindo do limbo em que sua individualidade ia se perdendo (isso explica a falta de memória dele à mesa com o Saito velhinho).
O título da música de Edith Piaf "Non, Je Ne Regrette Rien" significa "Não, não me arrependo de nada". Isso é a síntese da catarse de Cobb, quando ele confronta a sombra no limbo. E não por acaso é a música escolhida pra "chutar" de volta os personagens ao mundo real. O mais fantástico foi a forma como o compositor da trilha sonora, Hans Zimmer, utilizou fragmentos dessa música para permear a trilha, dentro do paradigma imposto pelo roteiro de que, quanto mais profundo o sonho, o tempo - e a música - desaceleram:
No final do filme eu fiquei desejando que o pião caísse, e se concretizasse o sonho do personagem. Mas Nolan mais uma vez respeitou a inteligência da platéia e nos brindou com aquele corte seco. O fato é que o desejo de Cobb se concretizou, independente de como vemos as coisas de fora! Podemos fechar a teoria acreditando que aquilo era um sonho, mas o fechamento psicológico do "grande sonho", e após isso ele estaria pronto para acordar no "mundo real".
Vi no Cabinecelular um comentário de @jucaleeano que sintetizou a magia do cinema refletida neste filme: Dizia algo como "eu não sei qual é o final, mas dane-se, eu SENTI o filme! Eu não quero saber, eu quero sentir o filme. É assim que funciona nossa mente". É aí que reside a beleza de "A origem", na emoção da caminhada, não em estabelecer o que é real ou não! Assim como nos sonhos nós lidamos com emoções, o roteiro do filme também lida, a cada nível percorrido. O filme é uma looonga explanação da viagem entre esses planos, enquanto o desenvolvimento dos personagens secundários e suas motivações são rasas ou subentendidas, em parte porque o filme já estava longo demais, em parte para que nós possamos mergulhar na essência do que compõe o ser humano: o sentir. E sentir junto com os personagens, aprendendo sobre eles a partir de suas reações, no momento DELES. Cinema não é sobre realidade, é sobre PERCEPÇÃO! Nós não vamos ao cinema pra sermos enganados e sobrepor nossa realidade com uma outra (o nome disso é horário eleitoral, e não cinema). Nós vamos ao cinema porque queremos viver durante algumas horas uma certa emoção, ou uma gama de emoções; queremos ser tocados pela magia, quando nos colocamos na mão do diretor e desejamos que ele nos leve a níveis que dificilmente atingiríamos por nós mesmos. Tanto que, pra mim, o momento mais emocionante de "A origem" foi um brilhante exercício de metalinguagem - assim como Tarantino utilizou em Inglourious Basterds - que foi o encontro de Fischer com seu pai moribundo. Tudo ali era irreal, previsível e um "filme" dentro de um filme, e ainda assim a inteligência, sutileza e HUMANIDADE com que a idéia foi implantada na mente do executivo foi de uma beleza tão grande que não pude conter algumas lágrimas. Apesar da motivação nada ética de fazer o executivo repartir seu patrimônio, é como foi falado no filme: o que fizeram ao rapaz foi algo a ser pago, e caro, pois sendo real ou não ou fatos, foi uma libertação REAL. E o que é real??! Real é a VIDA, e como diz @jucaleeano: "a sua vida é o que você percebe, então vai viver o teu sonho e não vai achar que está certo; vai SENTIR que está certo". E esse sentimento é o que representa o final, quando Cobb vê seus filhos, racionaliza por um momento, pega o amuleto e roda, mas aí olha de novo para as crianças e não espera ele cair. Ele vai VIVER.


Os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado
(Lévi-Strauss)


Poderíamos estender a interpretação desse filme para além dos sonhos e explorar percepções de realidade (por exemplo, o papel do Guru é estar sempre procurando despertar no seu discípulo uma nova percepção, pois a percepção normal está completamente embotada), como a bruxaria de Castañeda ou os Koans e Satoris do Budismo, ou mesmo tratar de planos de existência, e falar de técnicas para obter sonhos lúcidos. Mas isso seria se estender por demais e repetir coisas que já estão espalhadas pelo blog (divirtam-se buscando).

O que conta, no final, é que sonho nós queremos viver. E de quem será o sonho que estamos sonhando agora?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os Segredos de um Casamento Feliz



Os casamentos nem sempre são duradouros. Uma pergunta sempre fica: Qual o segredo para manter um casamento? O que faz um casamento feliz? Uma sondagem feita com 4000 casais do Reino Unido revelou algumas coisas curiosas sobre os segredos de um casamento feliz.
A afeição é um dos pontos centrais para um casamento feliz, com uma média de quatro demonstrações de afeto por dia (“chamego”). Muitos casais depois que se casam acabam deixando os afagos de lado. Isso é péssimo para o relacionamento. A familiaridade adquirida entre o casal com o passar do tempo pode propiciar esse tipo de atitude. Só que não se pode deixar que isso tome conta do relacionamento. Fazer carinho um no outro é bom, importante e faz bem para o casamento! A pesquisa evidenciou também que os gestos românticos são considerados essenciais para a manutenção de um casamento feliz. De acordo com os casais pesquisados, os gestos precisam acontecer em um período mínimo de três vezes por mês. As mulheres esperam cultivar o romantismo, mesmo depois do casamento.
Outro ponto crucial na pesquisa é que os casais que se consideram mais felizes não apenas passam o tempo juntos, mas gastam o tempo juntos com qualidade. Trata-se muito mais que estar unido e passar o tempo, mas é realizar “coisas” que os dois gostam, sair da rotina e revitalizar o relacionamento. Por exemplo, passeios românticos, ir ao cinema juntos, ir a barzinhos juntos, dentre outras coisas. Se estiverem em casa, é fundamental ter noites românticas juntos – realizando um jantar à luz de velas, ter uma boa conversa ou até mesmo assistir TV juntos com “coisas” que agradam os dois.
O segredo da união está em pequenos gestos. Pensou que era algo muito complicado? Não é não! Isso demonstra, na verdade, que o casal precisa é dar atenção, dedicar-se e cuidar do outro. Pequenos gestos como dar presentes deve ocorrer no mínimo duas vezes ao mês, como revelou a pesquisa. Não pense que tem que ser presentes caros! Presentes como flores, chocolates, poemas, pedaço de uma música que o outro gosta escrita em um papel, entre outros pequenos gestos. Você pode até inovar e preparar um Dia dos Namorados Econômico, mesmo se não for essa data comemorativa. Todo dia é dia de comemorar. Além disso, outras atitudes como ajudar em algumas tarefas de limpeza da casa, levar café na cama, realizar um jantar, se mostram significativas para um casamento feliz. 
Você está pensando que o segredo é ficar sempre junto? Errado! A pesquisa também revelou que um casamento feliz permite que cada um saia sozinho para desfrutar de diversão com amigos pelo menos uma vez por mês! Cada um precisa respeitar a privacidade do outro e realizar “coisas sozinhos”, como sair com amigos, por exemplo. Só que isso não significa que se deve abusar dessa privacidade! Isso não pode ser sempre e não pode deixar programas do casal de lado!
O segredo definitivamente é não deixar o casamento cair na rotina e ser sempre romântico! Porque só amor, não é suficiente para manter um casamento. É preciso demonstrar que ama para o outro, dedicar-se e cuidar do outro. Não é tão difícil ter um casamento feliz!
Dados dessa Pesquisa:
Daily Mail

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Abrindo o coração na hora da transformação


Hoje abro meu coração neste blog para a minha "nova vida" se seguir, enquanto estiver vivo neste plano material. A evolução e metamorfose deve-se muito ao fim "doloroso" do meu casamento. Mas estas palavras hoje descritas abaixo são a síntese da RENOVAÇÃO. Espero que tais palavras toquem nos que as lêem...
Fiquem em PAZ...


Por que será que nos lamentamos tanto quando nos decepcionamos, perdemos e erramos?
O mundo não acaba quando nos enganamos. Ele muda, talvez, de direção.
Mas precisamos tirar partido dos nossos erros.
Por que tudo teria que ser correto, coerente, sem falhas?
As quedas fazem parte da vida e do nosso aprendizado.
Que dói, dói. Ah! Isso não posso negar! Dói no orgulho, principalmente.
E quanto mais gente envolvida, mais nosso orgulho dói.
Portanto, o humilhante não é cair, mas permanecer no chão enquanto a vida continua seu curso.
O problema é que julgamos o mundo segundo nossa própria maneira de olhar e nos esquecemos que existem
milhões e milhões de olhares diferentes do nosso.
Mas não está obrigatoriamente errado quem pensa diferente da gente só porque pensa diferente.
E nem obrigatoriamente certo.
Todo mundo é livre de ver e tirar suas próprias conclusões sobre a vida e sobre o mundo.
Às vezes acertamos, outras erramos. E somos normais assim.
Então, numa discussão, numa briga, Pare um segundo e pense: "e se eu estiver errado (a)?"
É uma possibilidade na qual raramente queremos pensar.
Nosso "eu" nos cega muitas vezes.
Nosso ciúme, nosso orgulho e até, por que não, nosso amor.
Não vemos o lado do outro e nem queremos ver.
E somos assim, muitas vezes injustos (as) tanto com o outro quanto com a gente mesmo, já que nos recusamos
a oportunidade de aprender alguma coisa com alguém.
E é por que tanta gente se mantém nessa posição que existem desavenças, guerras, separações.
Ninguém cede e as pessoas acabam ficando sozinhas.
E de que adianta ter sempre razão, saber de tudo, se no fim o que nos resta é a solidão? Vida é partilha.
E não há partilha sem humildade, sem generosidade, sem amor no coração.
Se fecharmos nossa alma e nosso coração, nada vai entrar.
E será que conseguiremos nos bastar a nós mesmos? Eu duvido.
Não andamos em cordas bambas o tempo todo, mas às vezes é o único meio de atravessar.
Nunca duvide do seu poder de sobrevivência! Se você duvida, cai.
Aprenda com o apóstolo Pedro que, enquanto acreditou, andou sobre o mar, mas começou a afundar quando sentiu
medo.
Deus não prometeu Dias sem Dor; Risos sem Sofrimentos; Sol sem Chuva.
Ele prometeu Força para o Dia; Conforto para as Lágrimas e Luz para o Caminho."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nove Desconhecidos de Ashoka a um mito sem misticismo



"Talvez seja lícito pensar que noutras civilizações não houve ausência de ciência, mas sim dissimulação da ciência. Tal parece ser a origem da maravilhosa lenda dos Nove Desconhecidos.

A tradição dos Nove Desconhecidos remonta à época do imperador Asoka, que governou as Índias a partir do ano 273 a.C. Era neto do Chandragunta, primeiro unificador da Índia. Cheio de ambição como o seu antepassado, cuja tarefa quis completar, empreendeu a conquista de Kalinga, que se estendia desde a actual Calcutá até Madras. Os "kalinganeses" resistiram e perderam cem mil homens na batalha. O espectáculo dessa multidão massacrada transtornou Asoka. Ficou, para todo o sempre, com horror à guerra. Renunciou a prosseguir na integração dos países insubmissos, declarando que a verdadeira conquista consiste em captar a estima dos homens pela lei do dever e da piedade, pois a Majestade Sagrada deseja que todos os seres animados usufruam de segurança, liberdade, paz e felicidade.

Convertido ao budismo e devido à sua maneira de agir,Asoka espalhou esta religião através das Índias e do seu império, que ia até à Malásia, Ceilão e Indonésia. Depois o budismo chegou ao Nepal, Tibete, China e Mongólia. No entanto, Asoka respeitava todas as seitas religiosas. Aconselhava os homens a serem vegetarianos, aboliu o álcool e o sacrifício de animais.

H. G. Wells, no seu sumário da história universal, escreve: "Entre as dezenas de milhares de nomes de monarcas que se amontoam nos pilares da história, o de Asoka brilha quase isolado, como uma estrela".

Diz-se que, consciente dos horrores da guerra, o imperador Asoka quis proibir para sempre aos homens que utilizassem a inteligência de uma forma prejudicial. Sob o seu reinado, a ciência da natureza passou a ser secreta, tanto passada como futura.

As pesquisas, indo da estrutura da matéria às técnicas de psicologia colectiva, esconder-se-ão, dali em diante e durante vinte e dois séculos, atrás do rosto místico de um povo que o mundo julga apenas preocupado com o êxtase e o sobrenatural. Asoka fundou a mais poderosa sociedade secreta do Universo: a dos Nove Desconhecidos.

Continua a dizer-se que os grandes responsáveis pelo actual destino da Índia - e sábios como Bose e Ram acreditam na existência dos Nove Desconhecidos - deles recebiam conselhos e mensagens. Com alguma imaginação, é possível avaliar-se a importância dos segredos que poderiam guardar nove homens beneficiando directamente das experiências, dos trabalhos, dos documentos acumulados durante mais de duas dezenas de séculos. Quais os objectivos que esses homens têm em vista? Não deixar cair em mãos profanas os meios de destruição. Prosseguir as investigações benéficas para a humanidade. Esses homens seriam renovados por cooptação a fim de defender os segredos técnicos de um passado longínquo.

São raras as manifestações exteriores dos Nove Desconhecidos. Uma delas está ligada ao prodigioso destino de um dos homens mais misteriosos do Ocidente: o papa Silvestre II, conhecido sob o nome de Gerbert d'Aurillac. Nascido em Auvergne no ano 920, falecido em 1003, Gerbert foi monge beneditino, professor da universidade de Reims, arcebispo de Ravena e papa por mercê do imperador Otão III.

Teria passado algum tempo em Espanha, depois, uma misteriosa viagem tê-lo-ia levado até às Índias, onde captara diversos conhecimentos que causaram assombro no seu séquito. Também possuía, no seu palácio, uma cabeça de bronze que respondia SIM ou NÃO às perguntas que ele lhe fazia sobre a política e a situação geral da cristandade.

Na opinião de Silvestre II (volume CXXXIX da Patrologia Latina, de Migne), esse processo era muito simples e correspondia ao cálculo feito com dois números. Tratar-se-ia de um autómato análogo às nossas modernas máquinas binárias. Essa cabeça "mágica" foi destruída quando da sua morte, e os conhecimentos trazidos por ele cuidadosamente escondidos.

A biblioteca do Vaticano proporcionaria sem dúvida algumas surpresas ao investigador autorizado. O número de Outubro de 1954 de Computers and Automation, revista de cibernética, declara: "Temos de imaginar um homem de um saber extraordinário, de uma destreza e de uma habilidade mecânica fora do comum.

Essa cabeça falante teria sido feita "sob determinada conjunção das estrelas que se dá exactamente no momento em que todos os planetas estão prestes a iniciar o seu percurso". Não se tratava nem de passado, nem de presente, nem de futuro, pois aparentemente essa invenção ultrapassava de longe a importância da sua rival: o perverso "espelho sobre a parede" da rainha, precursor dos nossos modernos cérebros automáticos. Houve quem dissesse, evidentemente, que Gerbert apenas foi capaz de construir semelhante máquina porque mantinha relações com o Diabo e lhe jurara eterna fidelidade".

Teriam outros europeus estado em contacto com essa sociedade dos Nove Desconhecidos? Foi preciso esperar pelo século XIX para que reaparecesse este mistério, através dos livros do escritor francês Jacolliot.

Jacolliot era cônsul de França em Calcutá na época de Napoleão III. Escreveu uma obra de antecipação considerável, comparável, se não superior, à de Jules Verne. Deixou, além disso, várias obras consagradas aos grandes segredos da humanidade. Essa obra extraordinária foi roubada pela maior parte dos ocultistas, profetas e taumaturgos. Completamente esquecida em França, é célebre na Rússia.

Jacolliot é formal: a Sociedade dos Nove Desconhecidos é uma realidade. E o mais estranho é que cita a este respeito técnicas absolutamente inimagináveis em 1860, como seja, por exemplo, a libertação da energia, a esterilização por meio de radiações e a guerra psicológica.

Yersin, um dos mais próximos colaboradores de Pasteur e de Roux, teria sido informado de segredos biológicos por ocasião da sua viagem a Madras, em 1890, e, segundo as indicações que lhe teriam sido dadas, preparou o soro contra a peste e a cólera.

A primeira divulgação da história dos Nove Desconhecidos deu-se em 1927, com a publicação do livro de Talbot Mundy, que pertenceu, durante vinte e cinco anos, à polícia inglesa das Índias. Esse livro está a meio caminho entre o romance e a investigação.

Os Nove Desconhecidos utilizariam uma linguagem sintética. Cada um deles estaria de posse de um livro constantemente renovado e contendo o relatório pormenorizado de uma ciência. O primeiro destes livros seria consagrado às técnicas da propaganda e da guerra psicológica. "De todas as ciências, diz Mundy, a mais perigosa seria a do controlo do pensamento dos povos, pois permitiria governar o mundo inteiro".

É de notar que a Semântica Geral, de Korjybski, apenas data de 1937 e que foi necessário aguardar a experiência da última guerra mundial para que principiassem a cristalizar-se no Ocidente as técnicas da psicologia da linguagem, quer dizer, da propaganda. O primeiro colégio de semântica americano só foi criado em 1950. Em França, apenas conhecemos A Violação das Multidões, de Serge Tchokhotine, cuja influência nos meios intelectuais e políticos foi importante, apesar de só ao de leve tocar no assunto.

O segundo livro seria consagrado à psicologia. Falaria especialmente na maneira de matar um homem ao tocar-lhe, provocando a morte pela inversão do influxo nervoso. Diz-se que o judô deriva de certos trechos dessa obra.

O terceiro estudaria a microbiologia e especialmente os colóides de protecção. O quarto trataria da transmutação dos metais. Diz uma lenda que nas épocas de fome, os templos e os organismos religiosos de protecção recebem de uma fonte secreta enormes quantidades de ouro muito fino. O quinto incluía o estudo de todos os meios de comunicação, terrenos e extraterrenos. O sexto continha os segredos da gravitação. O sétimo seria a mais vasta cosmogonia concebida pela nossa humanidade. O oitavo trataria da luz. O nono seria consagrado à sociologia, indicaria as leis da evolução das sociedades e permitiria a previsão da queda.

À lenda dos Nove Desconhecidos está ligado o mistério das águas do Ganges. Multidões de peregrinos, portadores das mais pavorosas e diversas doenças, ali se banham sem prejuízo para os de boa saúde. As águas sagradas tudo purificam. Pretenderam atribuir essa estranha propriedade do rio à formação de bacteriófagos.

Mas por que motivo não se formariam eles igualmente no Bramaputra, no Amazonas ou no Sena? A hipótese de uma esterilização por meio de radiações aparece na obra de Jacolliot, cem anos antes de se saber possível um tal fenómeno. Essas radiações, segundo Jacolliot, seriam originárias de um templo secreto cavado sob o leito do Ganges.

Afastados das agitações religiosas, sociais e políticas, resoluta e perfeitamente dissimulados, os Nove Desconhecidos encarnam a imagem da ciência calma, da ciência com consciência. Senhora dos destinos da humanidade, mas abstendo-se de utilizar o seu próprio poder, essa sociedade secreta é a mais bela homenagem possível à liberdade em plena elevação. Vigilantes no âmago da sua glória escondida, esses nove homens vêem fazer-se, desfazer-se e tornar a fazer-se as civilizações, menos indiferentes que tolerantes, prontos a auxiliar, mas sempre sob essa imposição de silêncio que é a base da grandeza humana. Mito ou realidade? Mito soberbo em todo o caso, vindo das profundezas dos séculos - e ressaca do futuro."

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Luz dos olhos... A porta da alma.


Temos falado nos últimos artigos, sobre o olhar com que nos vemos e as coisas que chegam até nós magnetizadas a partir desta visão, desta imagem, que trazemos de nós mesmos. Isso não é consciente na maioria das vezes, mas é uma sensação velha e familiar que envolve um olhar para si mesmo. Falamos ainda que ao buscar um oráculo, no fundo, buscamos ser vistos através de um olhar que seja mais amplo do que eu me vejo, e que me abra possibilidades, que me tire dos meus costumeiros limites. Águias enxergam de cima, não é mesmo? Os olhos de um oráculo são olhos de quem vê do alto, de quem voa longe.
Houve um tempo (e ainda hoje dentro da medicina tibetana isso existe) em que os médicos se reportavam ao oráculo para uma visão mais acurada do que estava acontecendo num caso; havia uma continuidade entre o olhar curativo e o olhar que busca ganhar dados sobre uma situação através de um ponto de vista mais amplo (que um oráculo possibilita), numa cultura em que o curador (o médico) e o xamã (o que enxerga além), muitas vezes, são a mesma pessoa.
Lembro-me das conversas que já tive com Lama Gangchen e de como ele nos olha profundamente dentro dos olhos, escaneando-nos, tim tim por tim tim, enquanto conversamos. De fato, é preciso estar no coração para sustentar confortavelmente a penetração do olhar dele. Não há nada que ele não veja nesse momento. Como lente 360 º graus ele vê tudo e bem do alto. Mas, alto, neste caso, não significa distância, tão pouco frieza. Significa Verdade. Com um olhar que tem a profundidade da Verdade e abertura do Amor. Pois apesar de enxergar tudo, é um olhar que não julga, não recrimina e não condena. É um olhar de amor. Um olhar de paz.
Diz-se muitas vezes que a pessoa "não teve coragem de nos olhar nos olhos"... e que "os olhos são o espelho da alma"; do coração. Muitas vezes a força é medida pelo olhar, por quem sustenta o olhar firme.
Mas para além da força, aqui interessa falar do olhar que abre possibilidades, olhar que faz crescer, o olhar que cura. Há muitos olhares que abrem caminhos em nossas vidas. Como diz Elisabete Lepera: "É pelo olhar da mãe que um filho anda. É o olhar dela que o sustenta nos primeiros passos, acompanhando-o e fazendo um chão onde ele pisa".
O olhar do terapeuta é o detentor das possibilidades positivas do cliente. O terapeuta é o guardião das possibilidades de cura do cliente, na medida em que está vendo o lado mais maduro dele, o lado que se engaja num projeto de ser feliz. O terapeuta sustenta esta visão enquanto o cliente ainda não vê o que está sendo dito.
Lembro-me também da cena do filme Quem Somos Nós, em que o pajé via no mar caravelas que ninguém da tribo via, mas porque ele viu os outros começaram a ver. É verdade que não vemos algo até que alguém nos mostre... e quando alguém me mostra, eu passo a ver algo que antes não existia para mim. Com um Mestre é assim. Isso é fato. Todo processo de aprendizagem se dá desta maneira. O processo de crescimento passa pela confiança quando "suspendemos a descrença" em relação ao que não vemos. E só fazemos isso com alguém a quem concedemos crédito.
Mas a maneira como nós nos enxergamos é muito polarizada: alternamos entre a complacência da vítima e a tirania do perfeccionismo, o "homem da capa preta", o nosso carrasco interno. E nesse juízo desarrazoado vamos oscilando. O que conta aqui é o olho com que nos vemos e o que ele vê... Pois é o que o olho vê, que decreta o andamento da questão. Mas poucas, bem poucas vezes, nos enxergamos com amorosidade.
Tome uma pessoa que para você é muito querida. Veja-a numa situação complicada e você logo enxergará qualidades ou enxergará as suas falhas, mas buscará também por possibilidades, recursos internos, soluções, pois busca ver o positivo na pessoa. Isso é bem diferente da paixão que é cega! Lama Gangchen diz: "a amizade espiritual é aquela em que você, apesar de reconhecer as negatividades do outro, se sente atraído pelas suas positividades. Assim, você responde sempre ao potencial de crescimento de seu amigo, e não às suas negatividades".
Mas em geral, quando é conosco, a exigência impera. Nestas horas vale sempre pensar: se ao invés de estar acontecendo comigo, isso estivesse acontecendo com X (sua amiga querida, seu filho, ou alguém que você ama), eu estaria pensando assim a seu respeito? Reveja-se pela luz dos olhos do amor.
Numa relação a dois, a maneira como vemos e somos vistos é fundamental para determinar o futuro e a resiliência da relação. Somos vistos como fortes ou como fracos? O olhar do outro fecha minhas possibilidades no mundo, ou as abre? E eu? Como olho para o parceiro? Aqui não interessa tanto o que estou vendo, mas como estou olhando. Como é esse meu olhar. Eu fecho minhas possibilidades no mundo pelo meu olhar, ou as abro? Este meu olhar me ajuda a lidar com a situação, ou piora tudo?
Aprendi que o olhar amoroso não vem pronto, ele cresce e se desenvolve como tudo que é bom. Ele cresce quando começamos a notar e a nos perguntar: "como o Amor veria isso?" Precisamos ter esta experiência libertadora de um olhar de amor para nós. Precisamos nos fazer esta pergunta com freqüência: "como o Amor veria isso?"
De fato, diz-se que a mente purificada, como a de um Buda, não enxerga a negatividade, não se prende nela. O que o olho vê é a beatitude da mente. Esse olhar é puro como o de uma criança, mas com sabedoria. Ele não é ingênuo, mas sim puro. Se estamos com a mente muito fechada e vendo-nos pelo pior ângulo é bom sabermos que precisamos purificar a mente... A negatividade não está no fato em si, mas sou eu que o vejo com raiva, com ódio, mágoa, etc...
Lembre-se: é o que o olho vê que decreta o andamento da questão.
Ter-se em boa conta, não é uma questão de auto-estima, mas de desenvolvimento; de ir conseguindo ver-se com olhos mais puros, através do olhar do amor.
Enfim, cabe sempre a pergunta: como o Amor olharia para esta questão? O que o Amor faria a respeito disso? Como o Amor agiria aqui?

domingo, 13 de junho de 2010

ESTAR SOZINHO...

Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio.
As relações afetivas também estão passando por profundas
transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação
compatível com os tempos modernos,
na qual exista individualidade,
respeito, alegria e prazer de estar junto,
e não mais uma relação de dependência,
em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa
de que somos uma fração
e precisamos encontrar nossa outra metade
para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo
de despersonalização que, historicamente,
tem atingido mais a mulher.
Ela abandona suas características,
para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz o outro tem de saber fazer o que eu não sei.
Se sou manso, ele deve ser agressivo,
e assim por diante.
 Uma idéia prática de sobrevivência,
e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria.
Estamos trocando o amor de necessidade,
pelo amor de desejo.
Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso,
o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor
de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas.
Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras.
O outro, com o qual se estabelece um elo,
também se sente uma fração.
Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma.
É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo,
e depois tem de ir se reciclando,
para se adaptar ao mundo que fabricou.
Estamos entrando na era da individualidade,
o que não tem nada a ver com egoísmo.
O egoísta não tem energia própria;
ele se alimenta da energia que vem do outro,
seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor,
tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros,
e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles
que conseguirem trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa
relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso.
Ao contrário, dá dignidade à pessoa.
As boas relações afetivas são ótimas,
são muito parecidas com o ficar sozinho,
ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões
exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único.
Nosso modo de pensar e agir
não serve de referência para avaliar ninguém.
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo
interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende
que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo,
e não à partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e
mais compreensivo quanto às diferenças,
respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável.
Nesse tipo de ligação, há o aconchego,
o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém,
algumas vezes você tem de aprender

a perdoar a si mesmo...